A Geni e o Serra
Quando garoto juvenil era
freqüentador dessa penitente instituição carinhosamente apelidada de escola.
Não gostava, é claro, do marasmo diário que aquilo me proporcionava. Não
gostava é pouco: preferia um tiro bem no meio dos olhos a ter que ficar lá,
sentado numa posição em que só é possível olhar a nuca do colega e a
performance do palhaço lá na frente.
A escola em que passei a
maior parte dos anos de minha miserável vida adolescente ainda tinha alguns
agravantes. Por algum motivo que, muito provavelmente, nenhum metido a Paulo
Freire poderá me esclarecer, não era permitido o uso de bonés em sala de aula,
nem o divertido hábito de mascar chicletes. Por quê? Já disse que não tenho a
mínima idéia. Deve ter a ver com a nossa amada diretora, uma espécie de pseudo
lingüista, educadora e crente fervorosa em duendes (é sério!) que nos propunha
um comportamento assim, um tanto quanto peculiar. Uma fofa que, lembro bem, não
era a Xuxa nem algo que o valha.
Outro fator que aumentava o
nível de insanidade era uma professora de português que carregava consigo o
melhor dos nomes que uma professora de português pode carregar: Geni. Também
não sei bem o porquê desse ser um bom nome. Para mim parecia muito óbvio. Soa
legal, tem apelo, propicia piadas e tem uma música inteirinha só pra ela.
Música essa que eu ainda não conhecia naquela época. Sorte dela...
Pois bem. Essa bendita mulher
era o próprio diabo na rua no meio do redemoinho. Ela não gostava de nada nem
de ninguém. Gostava, isso sim, de ver o sofrimento estampado na cara de cada
pobre alma maltratada por sua sede incomensurável de sangue e vísceras (exagero
proposital). Sim, meus caros, esse agradável exemplar de ser humano nos dava
ditado todos os dias, com chamada oral e o catso a 4, só pra expor e humilhar
seres de tão pura ingenuidade pueril (exagero e pleonasmo reiteradamente
proposital).
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Queria mais é ficar de boa, do lado de fora do colégio |
Há, no meio de toda essa dor,
um episodio que mais me corta o coração. Num dia como qualquer outro nos
encontramos, eu e Geni, em nossa batalha campal diária. Não estávamos no nosso
melhor humor e a provocação mútua agradava aos ouvidos daqueles que nada
queriam com a aula e com a vida para além do futebol na educação física. A cada
chibatada da possante senhora, respondia afiando a língua no amolador do inferno.
No limite dos ânimos vêm as fatídicas palavras, firmes, resolutas, cortantes:
VAI SE FUDE, PROFESSORA!
Quanta vergonha! Aquela alma,
por mais debilitada e ressentida dos longos anos de docência, não merecia tal
disparate. Veio a pior das reações: ela chorou e saiu da sala. Eu,
pateticamente orgulhoso do meu feito, me vangloriava aos amigos mais eufóricos
e comemorava os preciosos minutos sem aula. Fui obviamente chamado à diretoria
e peguei bons três dias de suspensão, explicados pormenorizadamente à mamãe
pela diretora dos duendes, o que veio a me render uma merecida surra e alguns
meses sem o precioso videogame.
Agora, caro leitor, vem a tão
aguardada conexão. Imaginem só se essa cena toda acontecesse na cidade
imaginária do morto vivo a quem chamamos, não tão carinhosamente, de Vampiro
Serra. Seria eu escoltado por truculentos homens da lei até a Fundação Casa
mais próxima e teria minha capivara pela primeira vez preenchida com os dizeres
garrafais: CRIMINOSO EM POTENCIAL.
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Procurar uma foto do Serra é sempre muito divertido. |
Não da pra entender como uma
ação como essa, proposta pelo amado ex quase prefeito, não nos cause um vômito
coletivo. Como é que esse homem calvo de nosso tempo acha que vai identificar
esses maníacos, esquizofrênicos, matadores de velinha em potencial? Eu acho que
uma seção de choques embaixo da unha pode resolver e fazer qualquer moleque
atrevido confessar seus futuros crimes. Vamos ter que abrir, imaginem só, um
novo paradigma nas leis e na constituição. Eu sugiro o nome de CRIMES DO
PORVIR. Tudo aquilo que o sujeito é capaz de, por ventura fazer, deve ser
punido imediatamente, sem direito a réplica. Uma espécie de Minorty Report
tucanizado.
E não me venha com: “Peraí,
Umba. Se já viu do que esses cruzamentos de saci manco com curupira são capazes
de faze?! Esse mulek são os demo!” Ou até: “Para, velho! Bandidinho bom é
bandidinho morto”. Digo apenas: Não defeque pela boca! Quer dizer então que
violentando esse já tão precário ambiente de ensino vamos melhorar a situação?
Fico com a frase do óbvio ululante em qualquer croniqueta, Nelson Rodrigues,
citando algum de seus muitos amigos: “Combater a violência com mais violência é
o mesmo que querer emagrecer comendo açúcar”.
Palavra já gasta, fico por
aqui pra não consumir ainda mais seu tempo. Para a querida Geni, fica o meu eterno
arrependimento e a certeza de que, meio freudianamente meio sem idéia porque,
virei um professor de português bem mequetrefe.
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