segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Um cara baleado numa moto

Um cara baleado numa moto


Não é fácil. Ninguém disse que seria... Não passo esse tempo todo calado em vão. Ou melhor, passo. Não que escrever seja alguma coisa além de vã, mas pelo menos é um vômito, uma diarréia que expurga e limpa da banal virose do dia-a-dia. Virose essa que é metáfora. Mas nunca conheci uma que não fosse, já que qualquer sintoma que te leve ao hospital vira rápida canetada do displicente médico que logo sentencia com o que parece ser sua carta coringa: Fique tranqüilo, é só uma virose. E você lá, a sangrar por todos os orifícios, feliz por te acalmarem com uma caganeira.

Mas esse não é o objeto dessa croniqueta, É claro que daria pra falar um bocado de coisa relacionando médicos e caganeira. A reação da classe, tão linda e elitista, unida contra o programa mais médicos, por exemplo. Foi fofo ver o pessoal todo revoltado, subindo pra paulista de táxi, reivindicando contra o regime de escravidão que seria instaurado contra os “coitados médicos cubanos”. Escravidão essa que, além de fazer parte de uma concepção branca e deslocada do conceito, só preocupava na medida que fazia sombra aos salários da categoria. Mas isso são águas reacionárias passadas. Só trago à tona pela já declarada virose existencial.

Agora a parada é outra, mas ainda é a mesma. Explico: É evidente, logo pelo título desse labiríntico textolho, que a treta agora é o novo viral de internet. Um sujeito na zona leste, andando com sua moto e com uma camerazinha bacana na cabeça, é abordado por dois bandidos que, ao tentarem levar a motocicleta do cinegrafista/motoqueiro têm seus planos frustrados por um policial. A versão oficial: Ao perceber que a vítima estava em risco e que o mau elemento sacaria do seu revólver para deter a investida policial, o rapaz fardado dá dois tiros, fazendo um cair e outro fugir em disparada. (notem o caminhar de caranguejo do policial, logo após atingir o meliante, que denota a comicidade absurda até em fatos radicalmente trágicos) Não entrarei nos pormenores dessa versão que, sim, pode ser muito bem relativizada pelo vídeo, mas nas conseqüências discursivas e ideológicas que decorreram do acontecido.

Amigos, senhores, homens e mulheres de bem: NÓS NÃO QUEREMOS LEVAR BANDIDO NENHUM PRA CASA! Por que demônios vocês se sentem tão agredidos quando alguém tenta pensar para além dos domínios do indivíduo e de seu umbigo cascudo de sujeira? Véi, quando eu não fico de pé, emocionado e em lágrimas por conta da morte ou sofrimento de uma pessoa, eu me considero plenamente consciente das minhas faculdades mentais. Não dá pra achar que a morte de um cara vá lavar a alma de todas as vítimas da violência urbana. Por quê? Porque simplesmente não vai! É límpido e cristalino. Qual o fundamento, que não seja, sei lá, o código de Hamurabi, feito há uns 4 mil anos atrás, que dá validade a uma opinião como essa? Se você acredita nisso, sonolento leitor, cuidado para não proferir por aí a fadicídia sentença: “Eu não acredito em fadas!”. Peter Pan ficaria tristíssimo com você.  Não há lógica em sua opinião como não há fundamento para legitimar a violência de Estado.

 
Você não vai querer fazer isso.
Agora, caríssimo, se ainda está perdido no emaranhado de meus encaracolados argumentos, fique tranqüilo que não vai melhorar. Como não quero levar nenhum bandido para casa eu também NÃO VOU ESPERAR ATÉ ALGUÈM APONTAR UMA ARMA PARA ALGUÉM DA MINHA FAMÍLIA. Sério que vocês só conseguem repetir o que diz o Marcelo Resende? Eu, como boa parte das pessoas que conheço, já tive casos de violência extrema acontecendo com os que amo. Amigos morreram dos dois lados dessa cena e, acredite, eu não me senti vingado em nenhuma das situações. Que fique claro que eu acho ainda que são tipos de violência totalmente distintas. A de Estado é muito mais problemática que todas, sendo a principal culpada e desencadeadora das outras.

Tá firmão, tranqüilo. Agora vocês vão dizer. “AH É!? PORQUE QUE VOCÊ NÃO VAI PRA CUBA ENTÂO!?” Aí volta a diarréia como sistema e o vômito como regra. Amigos... Percebem que tudo o que dizem é fruto de uma construção muito bem elaborada de preconceitos e estigmas. Impossível dialogar quando o que impera é um senso maniqueísta que não vê saída possível sem que uma das partes seja obliterada ou exilada numa ilha caribenha. Não há possibilidade democrática que se mantenha sem que haja ao menos uma chance para o contra-discurso. Percebam aqui que sou pessimista quanto a possibilidade de qualquer enunciado que relativize a fúria classista. Experimente, por exemplo, dizer que o que houve no Carandiru há 20 anos foi um massacre, não uma justa limpeza social. Ta foda!

 
Se tá deixando ele triste

Mas suave. Não me alongo por aqui com medo de me contradizer, cheio de esperança num futuro post. Por enquanto o que fica é a virose. A caganeira da revolta bem comportada e o gorfo, proferido com gosto de minha confortável cadeira almofadada. 

2 comentários:

  1. texto bisonho, típico de um marxista cultural.

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    1. Seu comentário que é bisonho, típico de um nazista.



      (Vou começar a usar "nazista" ironicamente como sinônimo de "direita", já que a maioria dos brasileiros adora usar "comunista", "hipócrita", "marxista cultural", como sinônimos de esquerda

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