Um cara baleado numa moto
Não é fácil. Ninguém disse
que seria... Não passo esse tempo todo calado em vão. Ou melhor, passo. Não
que escrever seja alguma coisa além de vã, mas pelo menos é um vômito, uma
diarréia que expurga e limpa da banal virose do dia-a-dia. Virose essa que é
metáfora. Mas nunca conheci uma que não fosse, já que qualquer sintoma que te
leve ao hospital vira rápida canetada do displicente médico que logo sentencia
com o que parece ser sua carta coringa: Fique tranqüilo, é só uma virose. E
você lá, a sangrar por todos os orifícios, feliz por te acalmarem com uma
caganeira.
Mas esse não é o objeto dessa
croniqueta, É claro que daria pra falar um bocado de coisa relacionando médicos
e caganeira. A reação da classe, tão linda e elitista, unida contra o programa
mais médicos, por exemplo. Foi fofo ver o pessoal todo revoltado, subindo pra
paulista de táxi, reivindicando contra o regime de escravidão que seria
instaurado contra os “coitados médicos cubanos”. Escravidão essa que, além de
fazer parte de uma concepção branca e deslocada do conceito, só preocupava na
medida que fazia sombra aos salários da categoria. Mas isso são águas
reacionárias passadas. Só trago à tona pela já declarada virose existencial.
Agora a parada é outra, mas
ainda é a mesma. Explico: É evidente, logo pelo título desse labiríntico
textolho, que a treta agora é o novo viral de internet. Um sujeito na zona
leste, andando com sua moto e com uma camerazinha bacana na cabeça, é abordado
por dois bandidos que, ao tentarem levar a motocicleta do
cinegrafista/motoqueiro têm seus planos frustrados por um policial. A versão
oficial: Ao perceber que a vítima estava em risco e que o mau elemento sacaria
do seu revólver para deter a investida policial, o rapaz fardado dá dois tiros,
fazendo um cair e outro fugir em disparada. (notem o caminhar de caranguejo do
policial, logo após atingir o meliante, que denota a comicidade absurda até em
fatos radicalmente trágicos) Não entrarei nos pormenores dessa versão que, sim,
pode ser muito bem relativizada pelo vídeo, mas nas conseqüências discursivas e
ideológicas que decorreram do acontecido.
Amigos, senhores, homens e
mulheres de bem: NÓS NÃO QUEREMOS LEVAR BANDIDO NENHUM PRA CASA! Por que
demônios vocês se sentem tão agredidos quando alguém tenta pensar para além dos
domínios do indivíduo e de seu umbigo cascudo de sujeira? Véi, quando eu não
fico de pé, emocionado e em lágrimas por conta da morte ou sofrimento de uma
pessoa, eu me considero plenamente consciente das minhas faculdades mentais.
Não dá pra achar que a morte de um cara vá lavar a alma de todas as vítimas da
violência urbana. Por quê? Porque simplesmente não vai! É límpido e cristalino.
Qual o fundamento, que não seja, sei lá, o código de Hamurabi, feito há uns 4
mil anos atrás, que dá validade a uma opinião como essa? Se você acredita
nisso, sonolento leitor, cuidado para não proferir por aí a fadicídia sentença:
“Eu não acredito em fadas!”. Peter Pan ficaria tristíssimo com você. Não há lógica em sua opinião como não há fundamento
para legitimar a violência de Estado.
Agora, caríssimo, se ainda
está perdido no emaranhado de meus encaracolados argumentos, fique tranqüilo
que não vai melhorar. Como não quero levar nenhum bandido para casa eu também
NÃO VOU ESPERAR ATÉ ALGUÈM APONTAR UMA ARMA PARA ALGUÉM DA MINHA FAMÍLIA. Sério
que vocês só conseguem repetir o que diz o Marcelo Resende? Eu, como boa parte
das pessoas que conheço, já tive casos de violência extrema acontecendo com os
que amo. Amigos morreram dos dois lados dessa cena e, acredite, eu não me senti
vingado em nenhuma das situações. Que fique claro que eu acho ainda que são
tipos de violência totalmente distintas. A de Estado é muito mais problemática
que todas, sendo a principal culpada e desencadeadora das outras.
Tá firmão, tranqüilo. Agora
vocês vão dizer. “AH É!? PORQUE QUE VOCÊ NÃO VAI PRA CUBA ENTÂO!?” Aí volta a
diarréia como sistema e o vômito como regra. Amigos... Percebem que tudo o que
dizem é fruto de uma construção muito bem elaborada de preconceitos e estigmas.
Impossível dialogar quando o que impera é um senso maniqueísta que não vê saída
possível sem que uma das partes seja obliterada ou exilada numa ilha caribenha.
Não há possibilidade democrática que se mantenha sem que haja ao menos uma
chance para o contra-discurso. Percebam aqui que sou pessimista quanto a
possibilidade de qualquer enunciado que relativize a fúria classista.
Experimente, por exemplo, dizer que o que houve no Carandiru há 20 anos foi um
massacre, não uma justa limpeza social. Ta foda!
Mas suave. Não me alongo por
aqui com medo de me contradizer, cheio de esperança num futuro post. Por
enquanto o que fica é a virose. A caganeira da revolta bem comportada e o
gorfo, proferido com gosto de minha confortável cadeira almofadada.
texto bisonho, típico de um marxista cultural.
ResponderExcluirSeu comentário que é bisonho, típico de um nazista.
Excluir(Vou começar a usar "nazista" ironicamente como sinônimo de "direita", já que a maioria dos brasileiros adora usar "comunista", "hipócrita", "marxista cultural", como sinônimos de esquerda