Fascismo?
Convenhamos, fácil num tá. Depois dos
recentes acontecimentos juninos, em que a única fogueira pulada era uma catraca
e o gás lacrimogêneo fazia chorar mais que “Triste Partida”, não vejo como
poderia tá. Confuso? Sim, muitíssimo! Como explicar, depois das pancadas, a
sensação de marchar lado a lado de um pessoal que tinha o hino nacional na
cabeça e o Rafinha Bastos no coração? Tem que problematizar e controlar a
irresistível vontade de julgar. Às vezes escapava um ‘patriota tonto!’? Quando
em vez, admito, dava uma escapadela. Imaginávamos o que? Só nossos pares nas
ruas, pela estatização imediata dos meios de transporte e pelo fim do
capetalismo? Ah vá! Mas tá tranquilo, não se sinta mal de ter gritado
‘coxinha!’ muitas vezes. Você tava certo, só que não muito. Viu só?
Confuso!
Mas firmão. Foi
legal ver alguns dos nossos governantes terem uma crise de esquizofrenia
repentina. Eles diziam: “Impossível diminuir o preço da passagem!” “Vocês tão
fudido da cabeça!? Já aumentamos abaixo da inflação!” Para logo depois: “É, a
voz do povo será ouvida. Diminuiremos o preço que tá foda mesmo.” E antes que
você, leitor espertalhão, mas nada cauteloso, já esteja inflamado mostrado a
linguinha pra tela achando que isso foi pouco, ou que foi a troco de mais
imposto, tente compartilhar comigo essa perspectiva: As pessoas estão começando
a questionar o lucro das empresas, há cada vez mais aceitação da ideia do
passe-livre e tão usando da mais alta tecnologia laser para desintegrar
mentiras em pleno jornal da rede globo! Quer mais o que?
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Toma! |
Mas antes que me trate como um imbecil da
objetividade, caro leitor, crente de que sou um otimista inveterado, vamos ao
assunto a que essa croniqueta se dedica: O FASCISMO. Assim mesmo, em caixa alta
pela atenção que merece. Sei que essa palavra tá mais do que gasta e que seu
conceito remete a mais uma meia dúzia de xingamentos bacanas com que
merecidamente esculachamos a direita, mas é urgente resgatarmos alguns dos
significados perdidos no meio do caminho.
Um rápido flashback histórico.
(cuidadosamente parcial)
Alguns sujeitos na Itália do começo do
século, cansados com as mazelas que o capitalismo junto à doutrina liberal
produzia na sociedade, resolveram chutar o balde. 1- Alguns foram pelo
lado material da coisa e buscaram tomar o poder em prol de ideias à época
muitíssimo progressistas, colocando o trabalhador como ator principal da
história. O patrão era a figura mais detestada e sua queda era primordial para
a concretização de suas ideias. 2 - Uma outra rapaziada, mais afeita a
ordem, mas ainda assim na mesma situação de merda que a ditadura do patrão
propicia(va), resolveu que a culpa tava na corrupção dos antigos valores,
esquecidos pelos burgueses sujos. A pátria, a família, a religião e a honra
pessoal e coletiva eram a base fundamental desses valores. Pois bem, se a sua
opção é a número dois, parabéns! Ganhou um pôster do Mussolini e um beijinho do
Luciano Hulk.
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Ou junte-se ao pessoal da Grécia. Mas aprenda o gesto da mãozinha primeiro. |
E o que tem a ver o camelo com seus
carrapatos? Explico. Algumas reações que presenciamos nas ruas não podem ser
chamadas de outra coisa senão fascistas. Essa semi-religião mesquinha que prega
valores tão antiquados quanto um cavaleiro da idade média, adora quando uma
multidão enraivecida queima bandeiras de partido. O fascismo engorda mais ainda
quando as reivindicações ficam na base da moralização da política e da
generalização. “Somos contra a corrupção!” alguns dizem. Mas quem não é, cara
pálida? É capaz de você olhar pro lado e ver o Maluf marchando enroladinho na
bandeira do Brasil. Tem que tomar cuidado com isso ai! Essa malfadada ideologia
pega de orelhada e dá alvos fáceis, sempre a ser exterminados. Mas
continuamos...
Depois que esse ímpeto de ir às ruas
acalmou, pudemos ver algumas consequências engraçadas e até patéticas, como a
“marcha pela família em cristo contra o comunismo” com seus retumbantes 32
manifestantes ou “ a marcha dos médicos”, que contou com a colaboração de
taxistas, que levaram os revoltos pro ato contra a vinda de profissionais de
outros países. A globo contou 5 mil manifestantes. Eu contei 47. Cada um desses
fatos merece uma análise carinhosa e detida, mas essa num é a intenção agora.
Prefiro ficar com os nossos micro-fascismos diários que vem nos estapear todo
dia.
Véi! Pare imediatamente de achar massa o
fato de um funkeiro ter sido assassinado em pleno palco. É sério. Uma morte não
fica mais divertida pelo fato de você ser preconceituoso. E não venha me dizer
que ele merece por fazer apologia ao crime! Digamos que o assassinado fosse,
sei lá, o vocalista do Rage Against The Machine. O cara critica a polícia e é
tão anti-sistema quanto o MC Daleste, mas ele é mais legal por que canta em
ingrêis!? Para de ter mente de colonizado!
Tem mais. Por favor, não fique
esbravejando contra o “bolsa-esmola”, não defenda a diminuição da maioridade
penal, não fique orgulhoso em cantar o hino junto com o Galvão depois que a
banda para de tocar, não admire o policial que mata, desencana do Pânico na TV
e, principalmente, esqueça aquela piadinha dos “50 centarro” do Zorra Total!
Aquilo é rascimo!
Vai dizer que não é? |
Desculpe
aporrinhá-lo, caro leitor. É essa comichão que não me permite ficar quietinho
no meu canto, sendo esse magistral ponta de lança cantado por Jorge Bem. É que
tem certas fita que num dá. São muitas e prometo dar maior atenção pra
cada uma delas, mas por enquanto é nóis, “contra os boy, contra o GOE e contra
a Ku Klux Klan.”