Aumento da passagem.
Esse relato é para aqueles que não tiveram a oportunidade, por
qualquer motivo, estando de acordo ou não, de estar ontem na manifestação
contra o aumento da passagem no centro de São Paulo. Ressalto que não
tenho interesse em ser imparcial por acreditar que um texto opinativo é sempre
e inevitavelmente um ponto de vista sobre a situação. Tento, é claro, ser o
mais fiel possível ao que presenciei.
Chegamos ao ato, eu e mais cerca de doze amigos, por volta das
17:40 e fomos direto para a concentração na frente do teatro municipal.
Lá fomos informados da nossa sorte de não termos sido apanhados em uma
das inúmeras batidas policiais que, acreditem, prendiam indiscriminadamente
pessoas que portavam aquele que castamente não virou vinho , O VINAGRE.
Para quem não sabe, o vinagre inibe consideravelmente a ação do gás
lacrimogênio, (mal sabíamos como seria necessário), e, segundo os PMs, é usado
na composição de alguns artefatos inflamáveis. Convido o leitor, se já perdeu
seu tempo até aqui, a tirar suas próprias conclusões apreciando o texto e o
vídeo do jornalista Piero Locatelli da Carta Capital nesse link: http://www.cartacapital.com.br/politica/em-sao-paulo-vinagre-da-cadeia-4469.html
Saímos da concentração já num clima de muita tensão. Optei por
ficar longe das lideranças do movimento, partidárias ou do MPL (Movimento Passe
Livre), historicamente mais comprometidas com o andamento do ato sem violência,
para me aproximar das “bordas” do ato, onde se encontram na maior parte das
vezes os mais radicais, os “vândalos” que Marcelo Resende proclama aos sete
ventos no Cidade Alerta. Pois bem, posso dizer categoricamente que o
clima de tensão era unicamente causado pela associação Governo do Estado,
Governo Municipal, Polícia e é claro, boa parte da mídia. Não observei nenhum
dos manifestantes portando qualquer objeto que pusesse em risco a integridade
física do policial. É evidente que alguns reagiram como puderam as posteriores
agressões, mas ficou claro que o confronto era incentivado apenas por uma das
partes.
Para os mais pacientes, segue o depoimento do Coronel da polícia
militar Marcelo Pignatari dado à Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/06/1294300-pm-de-sp-diz-que-manifestantes-nao-ficarao-mais-a-vontade-pela-cidade.shtml
e dois vídeos excepcionais que, se não evidenciam, escancaram a postura da
polícia militar nos eventos de ontem: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=kxPNQDFcR0U
/ http://tv.estadao.com.br/videos,CORONEL-DIZ-QUE-PASSEATA-ESTAVA-DE-PARABENS-INSTANTES-ANTES-DE-TROPA-COMECAR-ATAQUE,203844,250,0.htm .
Para aqueles preguiçosos ou com o corpo doído das pancadas de ontem, o primeiro
se trata de um policial quebrando a própria viatura (seguido de um AHááááááááá
triunfante do cinegrafista) e o segundo trata do coronel da PM parabenizando a
manifestação, deixando implícita a sua subordinação às ordens do Estado no fim
de sua fala, segundos antes da tropa de choque começar a lançar suas bombas de
efeito imoral e seus gases de pimenta pra temperar a ordem.
Nesse momento estávamos eu, minha companheira e mais duas amigas
em frente à igreja ali da praça Roosevelt. É claro que já estávamos perdidos
dos outros amigos e preocupados com todos eles, mas a multidão ainda se
comportava de maneira minimamente organizada e sempre pacífica, aos gritos de
“Sem Violência!”. Achávamos que a ação da polícia era para retirar os
manifestantes da faixa da Consolação que vai ao sentido centro. Percebemos o
nosso engano quando vimos outra formação de policiais da tropa de choque
subindo do centro para a paulista e mais uma da Maria Antônia para a praça
Roosevelt, fazendo de nós uma espécie de sanduíche em que eu e os outros
azarados éramos as mortadelas assustadas.
Para não deixa-lo, entediado leitor, com a baba escorrendo pelos
cantos da boca de tanto enfado, narro rapidamente o restante dos
acontecimentos. A partir desse momento foi o caos total. Nunca havia inalado
tanto gás lacrimogênio (como fizeram falta aqueles vinagres!) e o desespero
tomou conta quando percebi que tinha perdido, além das duas amigas, minha
companheira. Tentei subir as ruas virando a esquerda na praça Roosevelt me
desvencilhando da multidão. Percebi que uma das amigas estava agarrada no meu
braço e vimos algumas pessoas caídas pelo caminho, muitas passando mal com o
gás e outras simplesmente apavoradas. Resolvemos andar pelo meio dos carros,
achando que na cabeça dos policiais o respeito ao patrimônio fosse maior que o
com as vidas ali em risco, mas nada adiantou. As bombas continuavam
despencando. E se você acredita que estou exagerando em falar de vidas em
risco, imagine uma concentração de umas 15.000 pessoas tentando passar por
espaços mais que apertados com balas de borracha e gás lacrimogênios açoitando
as costas. Foi um alívio ver que ninguém saiu pisoteado.
Conseguimos por fim chegar ao ponto de encontro previamente
combinado com uma baixa, minha companheira. Ligamos desesperados atrás
dela e fomos informados de que duas pessoas incríveis, Bruno e Fernanda, tinham
a levado para o hospital com um ferimento profundo no braço causado por
estilhaços de bombas. Meu conforto foi saber que ela já estava sendo examinada
e medicada e que passava bem.
Agora, caro leitor, peço que conclua comigo. Não espero com esse
relato que você se compadeça de nossas frágeis existências e guarde na memória
mais uma história em que, no final, o amor tudo vence, apesar da lindeza e
simpatia com que eu e minha namorada desfilamos pelo mundo. Quero que pense no
ponto de vista dos manifestantes como alguém que, assim como os policiais, tem
medos e problemas. Gostaria que pensasse também no que o Estado tem feito para
resolver os NOSSOS problemas cotidianos. Enfim, quero que reflitam uma
possibilidade sem muitos heróis ou vilões, só com gente que tem como princípio
defender interesses coletivos ou olhar, decidido e contemplativo, para próprio
umbigo.