sexta-feira, 14 de junho de 2013

Ato contra o aumento da passagem

Aumento da passagem.

Esse relato é para aqueles que não tiveram a oportunidade, por qualquer motivo, estando de acordo ou não, de estar ontem na manifestação contra o aumento da passagem no centro de São Paulo.  Ressalto que não tenho interesse em ser imparcial por acreditar que um texto opinativo é sempre e inevitavelmente um ponto de vista sobre a situação. Tento, é claro, ser o mais fiel possível ao que presenciei.

Chegamos ao ato, eu e mais cerca de doze amigos, por volta das 17:40 e fomos direto para a concentração na frente do teatro municipal.  Lá fomos informados da nossa sorte de não termos sido apanhados em uma das inúmeras batidas policiais que, acreditem, prendiam indiscriminadamente pessoas que portavam aquele que castamente não virou  vinho , O VINAGRE. Para quem não sabe, o vinagre inibe consideravelmente a ação do gás lacrimogênio, (mal sabíamos como seria necessário), e, segundo os PMs, é usado na composição de alguns artefatos inflamáveis. Convido o leitor, se já perdeu seu tempo até aqui, a tirar suas próprias conclusões apreciando o texto e o vídeo do jornalista Piero Locatelli da Carta Capital nesse link: http://www.cartacapital.com.br/politica/em-sao-paulo-vinagre-da-cadeia-4469.html
Saímos da concentração já num clima de muita tensão. Optei por ficar longe das lideranças do movimento, partidárias ou do MPL (Movimento Passe Livre), historicamente mais comprometidas com o andamento do ato sem violência, para me aproximar das “bordas” do ato, onde se encontram na maior parte das vezes os mais radicais, os “vândalos” que Marcelo Resende proclama aos sete ventos no Cidade Alerta.  Pois bem, posso dizer categoricamente que o clima de tensão era unicamente causado pela associação Governo do Estado, Governo Municipal, Polícia e é claro, boa parte da mídia. Não observei nenhum dos manifestantes portando qualquer objeto que pusesse em risco a integridade física do policial. É evidente que alguns reagiram como puderam as posteriores agressões, mas ficou claro que o confronto era incentivado apenas por uma das partes.

Para os mais pacientes, segue o depoimento do Coronel da polícia militar Marcelo Pignatari dado à Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/06/1294300-pm-de-sp-diz-que-manifestantes-nao-ficarao-mais-a-vontade-pela-cidade.shtml  e dois vídeos excepcionais que, se não evidenciam, escancaram a postura da polícia militar nos eventos de ontem: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=kxPNQDFcR0U  / http://tv.estadao.com.br/videos,CORONEL-DIZ-QUE-PASSEATA-ESTAVA-DE-PARABENS-INSTANTES-ANTES-DE-TROPA-COMECAR-ATAQUE,203844,250,0.htm   . Para aqueles preguiçosos ou com o corpo doído das pancadas de ontem, o primeiro se trata de um policial quebrando a própria viatura (seguido de um AHááááááááá triunfante do cinegrafista) e o segundo trata do coronel da PM parabenizando a manifestação, deixando implícita a sua subordinação às ordens do Estado no fim de sua fala, segundos antes da tropa de choque começar a lançar suas bombas de efeito imoral e seus gases de pimenta pra temperar a ordem.

Nesse momento estávamos eu, minha companheira e mais duas amigas em frente à igreja ali da praça Roosevelt. É claro que já estávamos perdidos dos outros amigos e preocupados com todos eles, mas a multidão ainda se comportava de maneira minimamente organizada e sempre pacífica, aos gritos de “Sem Violência!”. Achávamos que a ação da polícia era para retirar os manifestantes da faixa da Consolação que vai ao sentido centro. Percebemos o nosso engano quando vimos outra formação de policiais da tropa de choque subindo do centro para a paulista e mais uma da Maria Antônia para a praça Roosevelt, fazendo de nós uma espécie de sanduíche em que eu e os outros azarados éramos as mortadelas assustadas.

Para não deixa-lo, entediado leitor, com a baba escorrendo pelos cantos da boca de tanto enfado, narro rapidamente o restante dos acontecimentos. A partir desse momento foi o caos total. Nunca havia inalado tanto gás lacrimogênio (como fizeram falta aqueles vinagres!) e o desespero tomou conta quando percebi que tinha perdido, além das duas amigas, minha companheira. Tentei subir as ruas virando a esquerda na praça Roosevelt me desvencilhando da multidão. Percebi que uma das amigas estava agarrada no meu braço e vimos algumas pessoas caídas pelo caminho, muitas passando mal com o gás e outras simplesmente apavoradas. Resolvemos andar pelo meio dos carros, achando que na cabeça dos policiais o respeito ao patrimônio fosse maior que o com as vidas ali em risco, mas nada adiantou. As bombas continuavam despencando. E se você acredita que estou exagerando em falar de vidas em risco, imagine uma concentração de umas 15.000 pessoas tentando passar por espaços mais que apertados com balas de borracha e gás lacrimogênios açoitando as costas. Foi um alívio ver que ninguém saiu pisoteado.

Conseguimos por fim chegar ao ponto de encontro previamente combinado com uma baixa, minha companheira.  Ligamos desesperados atrás dela e fomos informados de que duas pessoas incríveis, Bruno e Fernanda, tinham a levado para o hospital com um ferimento profundo no braço causado por estilhaços de bombas. Meu conforto foi saber que ela já estava sendo examinada e medicada e que passava bem.


Agora, caro leitor, peço que conclua comigo. Não espero com esse relato que você se compadeça de nossas frágeis existências e guarde na memória mais uma história em que, no final, o amor tudo vence, apesar da lindeza e simpatia com que eu e minha namorada desfilamos pelo mundo. Quero que pense no ponto de vista dos manifestantes como alguém que, assim como os policiais, tem medos e problemas. Gostaria que pensasse também no que o Estado tem feito para resolver os NOSSOS problemas cotidianos. Enfim, quero que reflitam uma possibilidade sem muitos heróis ou vilões, só com gente que tem como princípio defender interesses coletivos ou olhar, decidido e contemplativo, para próprio umbigo.