Aí num dá!
Fiquei muito tempo calado ante as frivolidades da vida. Absoluta
inépcia na escrita, longuíssimas ressacas e uma preguiça que mais parece
malária existencial são fatores fundamentais pro meu silêncio. Outro fator,
talvez o mais determinante; a queda ladeira abaixo do time com mais adeptos
entre os moradores da Moca, o sempiverde Palmeiras. Mas isso é passado! Passei
um final de semana feliz, entre orgias gastronômicas de macarrão e seu
inseparável amigo, o frango, e siestas intermináveis que ultrapassaram
facilmente o ciclo de hibernação dos ursos tibetanos mais cansados. Mas, como
diz a canção, “Tristeza não tem fim, felicidade sim”.
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Ta lá, numa boa |
Eis que acordo de tétricos sonhos, combinação explosiva de barriga
cheia/caminha fofinha, e percebo estar já no meio da manhã de segunda-feira!
Tudo bem, não fosse a vontade de dormir de novo. Mas ta legal, ta
firmeza...Limpo os olhos empapados de remela e, como todo homem de bem, (sim,
eu acredito no tipo) vou às necessidades do corpo. Dispenso, obviamente, de
narrá-las.
Já asseado, bonitinho e cheiroso, sento na frente do
intelectualmente generoso aparelho de TV e começo a me deleitar com a
programação matinal. Legal como essas coisas parecem muito com um daqueles
bolinhos Proustianos. Imediatamente me lembrei do meu pai, coitadinho, me
acordando ainda com a barba desgrenhada e preparando meu “lanchinho” do café da
manhã. Pão, requeijão, presunto e queijo. Tudo numa combinação colorida e
maravilhosa, com um fiozinho desencapado que ia explodir lindamente no
microondas! Sim, papai botava tudo no micro e deixava a magia acontecer. Isso
tudo ao som dos digníssimos “professores” do tele curso 2000, fonte inesgotável
de saber.
Mas é claro que esse não é o objeto dessa desprezível croniqueta.
Sem ladainha ou rodeios, vamos ao dito cujo; ou melhor, aos ditos. Ana Maria
Braga e o coxinha dos coxinhas, Tiago Leifert. Estavam os dois, felizes e
globais no programa da “loira” dissertando livremente sobre as belezas da mais
nova criação dos gênios de nossa televisão. O campeonato de futebol feminino em
trajes menores. (tradução livre)
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Vem me seduzi! |
Os dois não escondiam o orgulho ao falar daquela nova maravilha da
criatividade televisiva. Imaginem só o brainstorm dos roteiristas/diretores:
“Pow, do que o brasileiro mais gosta?” no que responde aquele
estagiário/publicitário: “Oh, eu e meus brows gostamos de futebol e de mulher”
e vem o roteirista: “Gênio! Bora junta os dois!” E fez-se assim o primeiro
campeonato de futebol jogado de langerie.
Às imagens das popozudas se digladiando em campo seguiam-se os
comentários oportunos do Louro José e companhia: “Que belo jogo!” ou ainda
“Isso é o que eu chamo de pelada”. Fora a vontade de morrer ali mesmo, tive um
impulso, controlado apenas pelo sábio que habita o quarto ao lado, de incendiar
o aparelho de TV e jogá-lo pela janela, ainda em chamas.
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Por que não atirar de verdade? Ele é só um boneco! |
Não contente em foder com nossos cérebros há mais de trinta anos,
a globo ainda tem espaço pra (re) produzir o que existe de mais machista,
misógino, sem noção e Celsorussomanesco nos limites da classe média paulistana.
Ta de brincadeira!
Ai vem o leitor mais indignado e pergunta: “Qualé umbabarauma, tu
num gosta de mulher não?” Porra! Que tem a ver o cu com as calça? Ao afirmar
meu gosto pelas mulheres eu preciso repor a série de preconceitos que orbitam a
imagem feminina contribuindo ainda mais pra sua situação de subjugada, ante ao
macho dominante e espadaúdo? Vai te cata!
Ai me vem um mais equilibradinho: “Verdade Umbá, imagina se uma
delas fosse nossa mãe ou, sei lá, nossa filha?” Cate-se você também com o
leitor de cima! Precisamos levar tudo pro âmbito pessoal e familiar pra
perceber que devemos respeitar? Que eu saiba, respeitar o outro é um
procedimento que ta pra além da proximidade que temos com o sujeito. A não ser
que você trate esse sujeito como carne, mero objeto pra ser exposto numa vitrine,
bem ao lado do carrão da moda e do time do coração.
E pra quem acha que toda crítica deve vir acompanhada de uma
proposição, (seus chatos), proponho um novo movimento ludista, em pleno séc.
XXI. Ao invés de queimarmos as máquinas (assunto pra outra cronicazinha)
queimemos todos os nossos aparelhos de TV e, aproveitando que a fogueira vai ta
forte, joguemos todos os IPhones e afins (objetos de ódio antigo) pra queimarem
juntos. A não ser que você o esteja usando pra ler esse mísero Blog. Aí não, deixa
pra outra hora.