Uma épica
sobre rodas
“É muita treta, vish!” o tempo que passamos balançando nossa mal
tratada carcaça nos busões Kassabianos da vida. A maioria que habita a amada
paulicéia fica mais com os estranhos que compartilham essa falta de espaço, do
que com a própria família no aconchego do lar. Mais um daqueles tipos de
desumanidades gostosas que só o paulistano é capaz de engolir no dia-a-dia. É
nóis!
O ônibus é, sem sombra de dúvida, o lugar mais egoísta e
malacabado desse mundo. A arte de desrespeitar o espaço/direito alheio é
exercitada ali com requintes de crueldade. Se você é idoso, você sabe do que eu
estou falando. Se você é do tipo que não curte funk, você sabe do que eu estou
falando. Se você está simplesmente acima do peso você sabe muito bem do que
estou falando. Mas não entremos em maiores detalhes...
Não há herói que resista a essa fatalidade Ulyssiana; do
mitológico ao moderno. Aquiles seria mais um contínuo de pés velozes. Batman
redefiniria seu conceito de trevas e pediria gentilmente pra nunca mais ser
tratado pelo famoso apelido. Não há lugar pra fracos; nem pra fortes. Não há
lugar pra ninguém...
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Foto real do cotidiano de um ônibus com destino Grajaú |
Feita a descrição, vamos aos fatos. Em mais um desses dias
deliciosos em que nosso transporte público não ta pra principiantes, estava eu
com meus fones de ouvido (sim, a grande salvação/desgraça do homem moderno)
ouvindo as progressões harmônicas da voz aveludada de um dos nossos mais
prodigiosos/brega cantores da música brasileira, Oswaldo Montenegro, e eis que
começa um burburinho.
As pessoas estavam começando a interagir umas com as outras! Umas
falavam e outras, fatalmente, respondiam. Uma garota espavorida estava sentada
no meio do chão do ônibus e os outros (pasmem) a ajudavam. O que seria aquilo?
Obra de macumbaria? Não soube de imediato, pois “bandolins” acabara de me
deixar em estado de êxtase. A contragosto tirei os fones...
Continuei intrigado. Não sabia ao certo o que estava acontecendo.
Pensei nos motivos mais nobres possíveis pra tal comoção. Será que tinha alguém
passando mal? Será que esse alguém era a moça? Será que o amor acabava de
abandonar o coração desta mulher que agora, em prantos, recebia a ajuda dos
concidadãos? Mãos pendiam com celulares nas mãos, de prontidão para
ajudar no que fosse necessário. Foi ai que comecei a entender. Era um Iphone.
Percebi que a mulher sentada no chão na verdade procurava ferozmente
seu celular dentro da bolsa. “Não vi direito o que aconteceu. Não sei se caiu
ou se roubaram!” E o motorista ali, arranca não arranca com o carro. Todos
estavam extremamente envolvidos com a situação. Já falei dos celulares? Sim,
eram muitos os que apareciam pra que a mulher fizesse aquela ligação salvadora.
De nada adiantou. O motorista tinha que cumprir seu itinerário e levar todas
aquelas almas pros seus destinos. Silêncio de morte...
“Ainda bem que coloquei o aparelho no seguro semana passada”
Ufa! Todos exclamaram em
uníssono. Eis que a
precaução a salvou de males piores. Eis que a Apple nos ensina que existe sim
amor em SP.